Confira a carta na íntegra, elaborada pela Associação Cultural Cearense do Rock (ACCR), com apoio da RedeCem e Panela Discos. A quarta edição do Festival BNB Rock-Cordel acontecerá no próximo mês de Janeiro e é o primeiro evento de 2010 no calendário da música independente em Fortaleza (CE):
À Presidência do Banco do Nordeste e aos Gestores dos Centros Culturais do Banco do Nordeste,
Sabemos da importância da criação do programa BNB do Rock-Cordel para as cenas do Ceará e da Paraíba. Trata-se de uma das mais acertadas políticas públicas no âmbito da cultura voltada para um segmento considerável da juventude de Fortaleza e região metropolitana, bem como de Juazeiro do Norte e regiões circunvizinhas, sem falarmos da cidade de Souza, em pleno Sertão da Paraíba, que tiveram um impacto significativo em seus campos musicais e localidades.
A abertura dos Centros Culturais do Banco do Nordeste para os grupos de diversos matizes e estilos foi algo bastante relevante, demonstrando disposição de diálogo, sensibilidade política e social dos gestores dos referidos espaços culturais para com um segmento até então considerado marginal e estigmatizado. Além disso, o programa promove a inclusão social e cultural de centenas de grupos novatos e veteranos das cenas cearense e paraibana.
O programa é um sucesso de público, de crítica, de mobilização da juventude. Entretanto, possui deficiências e distorções que precisam ser corrigidas sob pena de ter sua continuidade comprometida. A defasagem dos cachês praticados pelo CCBNB, se é que podemos chamar assim, é um exemplo. Do ponto de vista simbólico, a inclusão do estilo musical “Rock” dentro da grade da programação musical foi de grande valia, posto que, foi inserido em sua programação um segmento numeroso e diversificado no programa BNB do Rock-Cordel.
Mas para um programa musical considerado, inclusive pela Direção do BNB, como um dos mais bem avaliados em termos de público, mídia, inclusão social e cultural, precisa pelo menos equiparar-se em termos de valores aos já existentes como “Cultura Musical”, “Mostra da Canção Independente”, “Festival BNB Instrumental” entre outros.
Só para termos uma idéia, os grupos de outras regiões do país selecionados para o programa BNB do Rock-Cordel – 2010 não recebem ajuda de custo, diferente dos músicos selecionados para os outros programas musicais que recebem cachês e 50% do valor em ajuda de custo girando em torno de R$ 500 a R$ 1.000,00.
Outra distorção diz respeito a classificação do que são atrações “Regionais” e “Nacionais”. Que parâmetros são utilizados nessa qualificação? Será que um grupo classificado como “Rock” oriundo de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e/ou Natal, por exemplo, não pode ser enquadrado dentro desses parâmetros? Sobretudo porque as bandas de “rock” são conhecidas nacional e internacionalmente entre o público desse estilo musical, independente de tocar em rádio ou programas de TV. Trata-se de um critério dúbio, injusto e contraditório, precisando ser corrigido para as próximas edições do edital de programação.
Alguns grupos selecionados para o IV Festival BNB do Rock-Cordel, por exemplo, desistiram de participar da edição de 2010, por conta do valor irrisório de R$ 250,00 (duzentos e cinqüenta reais) “limpo e seco” e sem direito a ajuda de custo. É importante valorizar os grupos locais, mas a cena precisa ser “oxigenada” através de intercâmbios com bandas e artistas de outras localidades do país, é importante que o programa e as ações do BNB tenham visibilidade fora de sua sede e área de atuação.
Senão vejamos: dos R$ 250,00 recebidos por cada grupo, 16% vão ser descontados na fonte, referentes ao INSS e ISS, 11% e 5% respectivamente, restando R$ 210,00. Para uma banda que ensaia uma vez por semana durante duas horas em estúdio apropriado, terão que desembolsar ao final de um mês R$ 80,00. Isso ao custo de R$ 10,00 (a hora). Sem falarmos que o grupo vai ter que pesquisar bastante para encontrar uma sala de ensaio com esse preço. Assim, dos R$ 250,00 iniciais, ainda restam R$ 130,00. O deslocamento para o estúdio não foi contabilizado.
Para uma apresentação em Fortaleza, por exemplo, terão que se deslocar de suas residências ao centro cultural. Se forem em um automóvel vão desembolsar pelo menos uns R$ 15,00 de combustível, e mais R$ 6,00 de estacionamento. Agora restam R$ 109,00. Sendo uma banda de quatro integrantes, indo e voltando de ônibus o custo vai girar em torno de R$ 14,40. Isto se o grupo tiver de pegar apenas uma condução. Assim, restam R$ 115,6.
Geralmente, uma banda de rock do tipo clássico possui quatro integrantes: uma guitarra, um baixo, uma bateria e um vocal. É o básico. Se o guitarrista trocar o encordoamento da guitarra (nacionais) (a cada seis meses), que custa em torno de R$ 15,00, o baterista adquirir um par de baquetas (o mais acessível) também por R$ 15,00 em média e o baixista for trocar o encordoamento do baixo (nacional), vai desembolsar R$ 60,00. Ao final vão investir R$ 90,00. Assim, do cachê inicial vai sobrar R$ 19,00 para o grupo que for em (01) um automóvel, e R$ 25,00 daqueles que tomarem uma condução pública.
E se após o show os músicos sentirem fome e quiserem merendar no Centro da cidade? Quem foi de ônibus vai ter a sua disposição R$ 6,40 para cada integrante e os que forem de automóvel vai ter R$ 4,75 cada. Dá para comer um pastel com caldo de cana, ou um misto quente e um refrigerante, ou comer prato em um self-service sem peso.
Por outro lado, sabemos que existem critérios objetivos que dizem respeito ao público que freqüenta os centros culturais onde são contabilizados os ingressos distribuídos, o público circulante durante os eventos, a quantidade de músicos e grupos incluídos pelo programa, onde o programa BNB do Rock-Cordel supera todos os outros e que não vem sendo levados em consideração no momento de definir o planejamento orçamentário e a “divisão do bolo”.
Não adianta apenas crescer o número de bandas para justificar que mais grupos foram incluídos a cada ano. Do ponto de vista quantitativo funciona muito bem, mas por outro lado, continuaremos inferiorizados e precarizados em relação aos músicos dos outros programas musicais. O processo deve ser uma via de mão dupla.
Do ponto de vista político, deve ser levado em conta que uma parcela considerável da juventude – antes excluída das políticas de cultura do Governo Federal - passou a freqüentar, ganhar dinheiro com a sua arte através dos centros culturais do BNB, sendo potenciais formadores de opinião e eleitores nas próximas eleições.
São simples observações que muitas vezes passam despercebidas perante os gestores como também da parte de quem define as políticas para os inúmeros programas dos Centros Culturais do BNB. É sabido, que em quatro edições o aumento dos cachês foi mínimo, passando de duzentos reais para os atuais R$ 250,00, estando há dois anos congelado. Não seria o momento de repensar e atualizar esses valores, aproximando dos outros programas musicais existentes? O cachê mais razoável e justo seria de R$ 500,00 para o próximo ano.
Atenciosamente,
Associação Cultural Cearense do Rock
Rede Ceará de Música (REDECEM)
Panela Discos